Uma caminhada onde olhar pra trás é sinônimo de vitória!! Conheça a história do ‘homem por trás da cova’

O número de enterros realizados nem de longe é coisa que passa na cabeça. A cada trabalho, uma nova dor presenciada. Nos corredores, nomes, histórias, rostos. A sentença, talvez, nem seja das melhores, mas é aquela que todos vão encontrar um dia.

Morador do Cordão Encarnado, André Silva reside praticamente ao lado do lugar onde passa a maior parte do tempo. “De domingo a domingo”, como descreveu, ou, sempre “quando tem enterro”, o destino é atravessar a rua, vestir o equipamento básico de segurança e ir trabalhar.

A figura muitas vezes ‘mística’ do coveiro esconde, aos olhos da sociedade, o ser humano, o homem e o pai. Visto até com maus olhos pela profissão que exerce, no dia de Finados, percorra por essa matéria com aquele que muitos desconhecem e passe a conhecer.

O homem ‘por trás da cova’!

André é filho de pais que não estudaram o quanto queriam. André é “um ‘caba’ legal que só faz o bem as pessoas. Hoje mesmo, veio uma cliente minha – nas horas vagas eu pego uns extras [serviços de pintura, limpeza e conservação de covas] – e me trouxe uma cesta básica. Eu ia passando por trás de um túmulo e encontrei um pai com três crianças e a mãe encerando o túmulo. Jesus tocou no meu coração e ‘di’ a cesta básica àquelas pessoas. Eu tinha em casa [a comida]. Ele [Jesus] disse ‘ajude o seu próximo’. Fiz isso, fiz minha parte”, comentou.

Filho de Cícera Nascimento Souza e João Batista da Silva, André relembra os últimos anos da vida do pai, que morreu há cerca de 20 anos. “Viviam separados quando meu pai morreu. Mas, foi minha mãe que enterrou ele. Quando minha mãe se separou dele, ele mesmo disse: ‘o dia que eu morrer, é ela que vai me sepultar.’ E foi dito e feito. Quem fez o enterro do meu pai foi a minha mãe”.

Tem cinco irmãos. “Zezé, Tita, Fátima, Carla e Sérgio”. O último, Sérgio, já trabalhou como coveiro até se acidentar. Momento em que foi obrigado a parar.

André lembra de Antônio Mariz, ex-governador da Paraíba. É nele que credita a imagem de um “anjo da guarda”. Foi Mariz que deu a possibilidade do jovem pobre, que estudou apenas até a 6ª série, transformar-se em coveiro. “Foi através dele que estou aqui. Em nome de Jesus, estou aqui há 10 anos”, disse.

Um dos irmãos de André (foto) também trabalhou na área
Um dos irmãos de André (foto) também trabalhou na área Foto: Cristiano Sacramento / RTC

A profissão

Questionado sobre o que é ser coveiro, André Silva respondeu: “É bom demais! Eu não gosto da desgraça dos outros, mas da minha profissão eu gosto. De coração, eu não quero que ninguém morra jamais. Mas, a minha profissão eu dou valor e eu gosto de fazer essa profissão. Vou morrer aqui, fazendo isso. Eu gosto de fazer”.

Família

André vive com Arlécia da Silva Araújo, de 39 anos. Juntos, o casal tem um filho cujo nome está tatuado no antebraço direito ‘Thalisson’.

A renda da minha casa, eu e minha mulher conseguimos com o cemitério. Ela zela túmulos. Dividimos tudo: feira, botijão de gás… O resto fica pra alguma necessidade: uma mistura, uma verdura… Coisas básicas”, completou.

Conheci minha esposa aqui, no cemitério. Ela também trabalha a mais de 20 anos aqui”.

Os olhos marejaram em observar onde está o corpo do "eterno amigo"
Os olhos marejaram em observar onde está o corpo do “eterno amigo”Foto: Cristiano Sacramento / RTC

O que é o cemitério

Uma família. Todos unidos, graças a Deus”, disse. “Muita gente saiu, foi transferida. Inclusive teve gente que morreu”.

Andando pelas ruas do cemitério, André depara-se com um túmulo em especial. “Seu Batista”, alertou. Antônio Batista de Araújo. “‘Caba’ 10, viu. Caba 10Morava aqui dentro mesmo. Morava na casinha (local onde atualmente os coveiros guardam equipamentos). Ele tomava conta daqui. É o mais velho. Tinha essa regalia”.

Antônio Batista era o coveiro mais antigo do cemitério da Boa Sentença. Trabalhou por lá durante 40 anos. Hoje, reserva-se em um túmulo recém-pintado com a cor verde. A memória daquele que foi um dia exemplo permanece no local onde ele dedicou maior parte da vida. “Quem socorreu ele foi eu e o administrador do cemitério, Joacil Silva. Socorremos, a filha dele ligou… Ele passou 15 dias entubado… Não resistiu”. Batista morreu no dia 28 de agosto de 2017. “Um amigão que ficou no coração”, completou.

Como todo bom coveiro, histórias sobre fenômenos sobrenaturais fazem parte do cardápio da conversa. Com André não é diferente. Ele revelou algumas passagens que considera, no mínimo, estranhas.

As crianças

Era 5 da tarde, eu já estava largando após um plantão. Fiquei ‘assentado’ em um banquinho perto de onde guardo meu material, né. Não tinha ninguém mais aqui. Não era nem tempo de nada de dia dos pais, dia das crianças… Eu vi duas crianças [pausa para respirar] descalças, de bermuda e sem camisa. Ela estavam correndo pra atrás de um túmulo. Era 5 horas da tarde, não tinha ninguém mais aqui dentro não. Só eu. Eu estava indo trocar de roupa. Elas olharam pra mim e passaram pra trás do túmulo. Na mesma hora, me ‘alevantei’ e corri pra ver o que elas foram fazer. Fui devagar, olhei assim… Quando eu percebi me perguntei: ‘cadê as crianças?’ Nem água… Tchau pra o louro… Me arrepiei todinho. Voltei pra trás ligeiro demais. Voltei pra trás ligeiro demais”, atenuou.

O dono de padaria

Disseram que enterrou um homem aqui… Ele era dono de uma padaria aqui perto… Enterraram ele, e, quando foram desenterrar ele estava de costas dentro do caixão. Quando foram desenterrar, ele tava emborcado. Não estava de papo pra cima não. Fiquei encabulado. Não era do meu tempo não, fiquei sabendo dessa história aqui. Fiquei encabulado”, afirmou.

Exumação

Teve uma vez que fui fazer uma exumação de um homem que tinha morrido há 10 anos… Ele estava inteiro… Quase que eu caia pra trás dentro do túmulo. Quando eu ‘abri’, ele tava inteirinho. Ele estava embalsamado, 10 anos enterrado e estava inteiro, com carne e tudo. Não tinha mais os olhos, mas, a carne, ave maria…”, relevou.

​“Tem que ter fé em Deus pra trabalhar aqui dentro, e, saber onde está pisando”. Disse

André Silva, após contar as histórias vivenciadas.

Questionado sobre as situações de sepultamento mais dolorosas, o coveiro experiente disse que não gostava de enterrar crianças. “Teve um enterro que chorei. Vi a mãe e o pai sofrendo muito, lembro logo do meu menino. Nem criança e nem mãe. É difícil de enterrar”.

Por mim eu não enterrava nada, tá entendendo? Mas, é o meu serviço. Só quem sabe é Deus. É meu serviço”.

O olhar pra cima de quem procura Deus sem exitar
O olhar pra cima de quem procura Deus sem exitarFoto: Cristiano Sacramento / RTC

Sonhos

André planeja uma vida de descanso. Durante a conversa, tocou na palavra aposentadoria em alguns momentos. Segundo ele, a hora de “desfrutar” é a mais aguardada. Os sonhos perpassam pela família também. Chegam ao filho Thalisson. André deseja que a criança se torne um policial militar. “Eu quero que ele estude bem muito. Com fé em Deus vou educar ele”, afirmou.

Quero um futuro brilhante, que o meu filho chegue a ser um policial militar. Uma educação boa. Se Jesus me conservar e permitir que eu cresça com o meu filho… quero um futuro”, disse.

André ainda falou sobre o dia de finados. Segundo ele, não tem coisa pior que um sepultamento na data referida. “É muita correria. Uma coisa que eu nunca esperava ver era enterro no dia de Finado. Tem. Todo ano tem. Meu Deus, é uma tristeza”, apontou.

Por fim, fez questão de deixar uma mensagem aos familiares de entes que estão enterrados no local. Segundo ele, no dia de Finados, por exemplo, o público é levado quase que exclusivamente por conta da celebração de missas. “Infelizmente, hoje em dia, só dá gente por conta da missa. Se não fosse por isso, não viria quase ninguém”, finalizou.

 

T5

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